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Lamarca. Quarenta anos de memória do capitão, guerrilheiro e... artista (?!)




Se não posso dançar, não é minha revolução. (Emma Goldman)



Nascido em 27 de outubro de 1937, Carlos Lamarca fez ginásio no Instituto Arco Verde (escola de Padres). Em 1954 ingressa na Escola Preparatória de Cadetes, em Porto Alegre. Aos 17, adere à campanha O Petróleo é Nosso. Começa a simpatizar com o comunismo ao receber boletins e jornais de uma célula (clandestina) do PCB na Academia Militar das Agulhas Negras, em Rezende, em 1957.

Em 1962, serve como 2º Tenente em missão da ONU no Canal de Suez. Essa viagem foi decisiva para sua tomada de consciência. Percebeu que a “democracia” que ele defendia, era balela para países do 1º mundo roubar o petróleo dos árabes. Por isso, concluiu que “se fosse combater, para ser justo, passaria pro lado deles (do povo), se houvesse combate.”

Suas convicções comunistas se fortaleceram a partir de 1963 com a leitura de clássicos marxistas – apesar da pouca compreensão do que lia. Já na polícia do exército (PE), em Porto Alegre, vê chegar ao fim o governo Jango. Era-lhe tão insuportável guardar presos políticos que, numa noite de dezembro de 1964, escalado como oficial de dia, dispensa o sargento subordinado, e promove a fuga do capitão Alfredo Ribeiro Dandt, acusado de subversão. Em nada deu o inquérito administrativo movido contra Lamarca.

Já capitão, estava na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) quando entrou para a vida clandestina, em 1969, fugindo do quartel de Quitaúna com 63 FALs, três metralhadoras e munições. Em sua vida clandestina Lamarca participa de algumas das mais espetaculares ações armadas da luta contra a ditadura civil-militar brasileira.

Em nove de maio de 1969, a VPR assaltou de uma só vez os bancos, Mercantil de São Paulo e o Itaú, a menos de duzentos metros, um do outro, no bairro do Braz. Cabia-lhe a cobertura dos companheiros que adentraram as agências. De onde estava viu um guarda apontar a arma para seu companheiro Darcy Rodrigues. Numa distância de 30 metros ele acerta com seu 38 a nuca do guarda, que ainda leva outro tiro no rosto antes de cair morto. Na sequência, já portando um dos fuzis expropriados do quartel, ele dá fuga aos companheiros que saiam das agências. Em julho de 1969 a VPR se une ao Comando de Libertação Nacional (COLINA) formando a Vanguarda Armada Revolucionária–Palmares, a VAR Palmares (essa união não dura muito tempo). E foi nessa organização que o capitão comandou uma das mais importantes ações de sua vida revolucionária. O ex-governador de São Paulo, Ademar de Barros, conhecido pelo slogan “rouba, mas faz”, escondia o dinheiro dos roubos que fazia num cofre na casa de uma amante, no bairro de Sta Tereza, no Rio. Ana Capriglione, ou Dr Ruy – como o velho corrupto se referia a ela entre pessoas conhecidas, para que não percebessem seu romance proibido – tinha um sobrinho na VAR Palmares. Este deu todas as pistas sobre o tal cofre. Às 3h da tarde do dia 18 de julho de 1969, a residência do “Dr Ruy” foi invadida por treze “agentes federais que buscavam documentos subversivos”. Depois de terminados os “interrogatórios”, os “agentes” foram embora, sem que ninguém fosse preso. Só uma hora depois é que os moradores perceberam o sumiço de um cofre de 200 kg, com 2,5 milhões de dólares, ou 10 milhões de Cruzeiros Novos. No cofre também havia documentos que denunciavam a origem do dinheiro. Um desses documentos revelava que o ex-governador corrupto tinha vendido para a Bolívia vacinas Sabin, doadas ao Estado de São Paulo pela Organização Mundial de Saúde. Mais adiante, junto com o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) eles capturam o Cônsul do Japão. Este é trocado pelo guerrilheiro Mario Japa que, preso, sofria as mais terríveis torturas nas mãos do mais terrível agente da repressão: Sério Paranhos Fleury.

Com o dinheiro do cofre expropriado, a organização de Lamarca comprara um sítio no Vale do Ribeira – litoral Sul de São Paulo – para treinamento de guerrilha. Quando a escola de guerrilha foi descoberta as Forças Armadas se dirigiram pra lá. Uma operação que durou mais de um mês e que envolveu cerca de 2 mil militares não foi suficiente pra prender o capitão guerrilheiro que conseguiu fugir pra São Paulo. Mas não sem antes enfrentar algumas batalhas nas quais pode se contabilizar baixas dos dois lados.

Contra a sua vontade, acatando uma decisão da VPR ele participa da captura do embaixador suíço. Uma lista de 70 presos é entregue ao governo junto com a exigência da leitura de um manifesto no rádio e na televisão e mais a gratuidade nos trens da Central enquanto durassem as negociações. O governo só aceita negociar a libertação dos presos, se recusando a atender as outras exigências (viajar de trem gratuitamente durante mais de um mês, por exigência dos guerrilheiros, poderia fazer o povo começar a ver com simpatia esses “terroristas”). Depois de muita negociação acerca de alguns nomes, 40 dias depois 70 presos embarcam em vôo para o Chile, ainda sob um governo socialista.

Migrado da VPR para o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro – quando ainda se acreditava que Che Guevara havia morrido em 8 de outubro de 1967) Lamarca tem que fugir pro interior da Bahia quando um militante da sua nova organização é preso (porém, Stwart Angel Jones, filho da estilista Zuzu Angel, morre sem delatar Lamarca).

Com uma enorme sucessão de quedas a repressão já tinha o perfil completo do MR-8. E pra piorar, as cartas que Lamarca mandava pra Iara Iavelberg (militante com quem viveu um romance), apreendidas no Rio, davam detalhes importantes da geografia do local onde ele se escondia. No final de agosto agentes da repressão começam a chegar ao sertão baiano. Depois de mais de 20 dias de perseguição, em 17 de setembro de 1971, Lamarca, faminto e adoentado, é morto junto com seu mais que fiel companheiro Zequinha Barreto, numa operação comandada por Nilton Cerqueira (Mais de vinte anos depois, já aposentado, Nilton Cerqueira assume a Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro. Causou polêmica com sua “gratificação faroeste” – abono pago a policiais por atos de bravura que, geralmente, eram mortes de civis em supostos combates. O problema foi que, como os salários dos policiais são baixos, os “atos de bravura” se multiplicaram assustadoramente).

Já nem sei mais há quantos anos tenho no ombro tatuado o rosto desse companheiro com quem muito me identifiquei. Por vários motivos. Acho inclusive que os seus erros, eu também cometeria se estivesse no lugar dele. Mas me encanta a saga de um homem que com todas as prerrogativas de um oficial do exército em plena ditadura que também era militar, ele abdica de tudo isso pra lutar contra os militares. Abdicou também da presença dos filhos, que foram mandados pra Cuba, antes de ele cair na clandestinidade, pois, como disse em carta pras suas crianças “O revolucionário tem que ser capaz de todos os sacrifícios pela causa, de até se separar dos seus filhos para libertar todos os filhos”. Em nome do que acreditava, abdicou da própria segurança. Teve em mãos dois milhões e meio de dólares, mas mesmo assim viveu seus últimos dias mal vestido e só tendo pra comer um pedaço de rapadura. E quem o conheceu, diz que ele era uma pessoa muito bem humorada.

Mas o que me chama mais atenção é que o homem mais procurado pela ditadura de 64, que fugiu do exército com um pequeno arsenal, que capturou Cônsul japonês, que capturou embaixador suíço, que “roubou” cofre com 2,5 milhões de dólares e que por algumas vezes foi obrigado a matar, dedicou alguns de seus últimos dias de luta revolucionária à arte. Pois é. O “terrorista” Lamarca, como eu, entendeu e praticou a arte libertária como instrumento de luta tal como os FALs e as metralhadoras que ele desviou do exército. Sua vida na arte cênica ocorreu um ano depois de o Brasil ter podido acompanhar ao vivo a conquista do tri campeonato da seleção brasileira. Maior euforia! O “milagre brasileiro” estava em curso e o desemprego era o mínimo. Aquele suficiente apenas para manter favorável à burguesia a relação de oferta e procura no mercado de trabalho. A guerrilha urbana estava praticamente aniquilada. Depois da morte de Marighella, Lamarca passa a ser o inimigo numero 1 da ditadura, o mais procurado. Nesse contexto, em pleno sertão baiano, suas peças teatrais parecem ser um arsenal mais viável do que as peças de artilharia. Lamarca queria era provocar naquela gente uma reflexão crítica sobre sua realidade material. Essa consciência era condição indispensável pra que essas pessoas um dia viessem a fazer uso de armas de fogo na luta pela libertação do país. Mas se Lamarca há 40 anos entendeu a importância da arte combativa para a nossa luta, por que será que a maioria dos militantes de hoje parece ainda não entender? Se essa sensibilidade não é uma das coisas que fazem com que uma pessoa grave o seu nome na história, certamente ela é uma das coisas que fazem de Carlos Lamarca uma das minhas maiores referências na luta de classes no nosso país. “Ousar lutar. Ousar vencer.”

Gas-PA – Coletivo de Hip-Hop LUTARMADA

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